Amadíssimos/as companheiros/as:
Faço chegar esta gravura, que pertence a uma série de gravuras sobre as sete virtudes e que, neste caso, se intitula…
… A PRUDÊNCIA
Esta gravura foi obra de um gravador e desenhista holandês chamado Jacob Mathan, que a fez entre 1571 e 1631, reproduzindo desenhos de Hendrick Goltzius, um desenhista, gravador e pintor holandês, 1558-1617.

Vamos começar com um texto em latim, vejamos:
«Arcanas rerum scrutor prudentia causas, preterita ancipiti vultu, video que futura».
Tradução: “A prudência investiga as causas secretas das coisas, sua dupla face olha para o passado e vê o futuro”.
Alguns historiadores de arte comentam:
“Apesar de que a relação dos atributos da Prudência é bastante variada, durante o século XVI o espelho e a serpente vão definir com mais frequência sua iconografia. (…)
O espelho constitui um atributo tradicional dessa virtude, significando em suas mãos um instrumento para o autoconhecimento, a materialização objetiva do Nosce te ipsum, “Conheça-te a ti mesmo”. (…)
A serpente, como atributo da Prudência, encontra sua correspondência na sentença evangélica de Mateus 10:16: ‘Eis que vos envio como ovelhas no meio dos lobos; sede, pois, prudentes como serpentes e simples como pombas', e já desde o século XIII, uma serpente adorna o brasão dessa virtude nas catedrais de Paris e Chartres”.
O Mestre Fulcanelli, no capítulo “Os guardas de escolta de Francisco III, Duque da Bretanha”, o Mestre Fulcanelli explica o simbolismo da Prudência em uma das esculturas do túmulo do duque Francisco II e de sua esposa Margarita de Foix, e associa os atributos desta virtude ─ o espelho côncavo, o compasso e a serpente ─ com a arte alquímica:
“Antes de ser elevada à dignidade de Virtude cardinal, a Prudência foi por muito tempo uma divindade alegórica à qual os antigos atribuíam uma cabeça de duas faces, fórmula que nossa estátua reproduz com exatidão e da maneira mais feliz. Seu rosto frontal oferece a fisionomia de um jovem de perfil muito puro, e o posterior de um idoso cujo aspecto, cheio de nobreza e severidade, se prolonga nos cachos sedosos de uma barba longa. Réplica de Janus, filho de Apolo e da ninfa Creusa, esta admirável figura não é menos majestosa ou interessante que as outras três.”
Amigos e amigas, esta pode ser claramente considerada a virtude fundamental que devemos alcançar em nosso trabalho interior. Lembre-se que o próprio Avatara Samael Aun Weor constantemente nos lembra da necessidade de nos olhar para o espelho da Alquimia. O que isso significa? Resposta: Significa que, através da introspecção analítica, devemos observar até onde nos levaram as metamorfoses que o Ars Magna ─ leia-se: a Alquimia ─ conseguiu provocar em nossa estrutura anímica. Isso irá nos dizer constantemente se houve mudanças em nossa natureza psíquica ou tudo foi em vão por causa da má manipulação do Arcano A.Z.F. e a falta de refinamento durante o uso dessa chave magna.
Inquestionavelmente, o compasso que a estátua da Prudência segura em uma de suas mãos é a alegoria dos bons traços na hora de medir o alcance dos nossos passos. Não devemos esquecer que, se o esquadro maçônico representa o reto sentir, reto pensar e reto atuar, o compasso simboliza os traços perfeitos que devemos imprimir em nossa obra interior, o que implica uma permanente auto-observação profunda na hora de trilharmos pelo Caminho Secreto.
Por outro lado, a serpente tem duas vertentes de interpretação. Basta lembrarmos daquela serpente que Apolo, irritado, feriu com seus dardos, a serpente tentadora do Éden, para diferenciá-la da Sagrada Serpente com a qual Moisés curava os israelitas no deserto. Uma representa a serpente infernal, nossas abominações ocultas, e a outra representa nossa Mãe Kundalini que sempre vela por nós ao longo de nossa existência. Nós precisamos, como bem dizem os evangelhos, ser prudentes como a serpente e mansos como as ovelhas. Precisamos ser prudentes diante do mal para não cair em suas garras, e simples quando estamos diante das almas que, sendo “inocentes”, nos suplicam ajuda para que possam se aproximar de Deus.
Vejamos esta citação do Venerável Fulcanelli em As moradas filosóficas:
“(…) a serpente, desprovida de asas, continua sendo o hieroglífico do mercúrio comum, puro e limpo, extraído do corpo da Magnésia ou matéria-prima. Esta é a razão pela qual certas estátuas alegóricas da Prudência têm como atributo a serpente fixada em um espelho, e este espelho, símbolo do mineral bruto fornecido pela Natureza, torna-se luminoso ao refletir a luz, ou seja, ao manifestar sua vitalidade na serpente ou mercúrio, que mantinha escondido sob seu envoltório grosseiro.”
A dupla face da Prudência nos fala da necessidade de sermos sábios e simples ao mesmo tempo. Todo Mestre ou Mestra será sempre sábio em suas profundezas anímicas e simples ao se mostrar diante das multidões. Eis a Prudência em sua expressão mais plena. Isso nos levará a ter uma Pedra Filosofal rica em experiências físicas e metafísicas, e ao mesmo tempo continuar neste vale de lágrimas compreendendo todas as almas que precisam de orientação.

A Prudência também aparece às vezes, representada na pintura e na escultura como um personagem feminino ou masculino com três cabeças, simbolizando o passado, o presente e o futuro. Não se esqueça que da palavra prudência deriva outro vocábulo: prevenido. Isso está nos dizendo que todos aqueles que querem evitar perigos, erros fatais, precisam ser cautelosos e não imprudentes…

Ele tem um espelho na mão direita e três livros fechados à esquerda.
Os três livros fechados que as esculturas anteriores nos mostram representam, como bem define Fulcanelli, o Mercúrio sem ter sido trabalhado. Para trabalhá-lo corretamente precisamos ser extremamente prudentes, respeitando as oito virtudes necessárias para despertar o Fogo Sagrado, a saber: que haja amor, compreensão, vontade, reta maneira de ganhar a vida, reta maneira de pensar, reta maneira de sentir, que haja paz, fidelidade ao cônjuge e ao Guru…

Eis aqui representada a Prudência, estimado/a leitor/a, alegorizada por três cabeças femininas, cada uma delas levando três livros, alegoria do Mercúrio dos sábios.

Na obra de Tiziano Vecello são mostradas três cabeças humanas, cada uma olhando em uma direção diferente, e debaixo delas, três cabeças de animais: da esquerda para a direita um lobo, um leão e um cão.
Sobre o triplo retrato, Tiziano explica o sentido da alegoria em uma inscrição: EX PRAETERITO / PRAESENS PRUDENTER AGIT / NE FUTURA ACTIONXFC DETURPET, “Desde a experiência do passado, prudência nos atos do presente, para não estragar os atos do futuro”.
Vamos agora refletir sobre as seguintes frases, que são muito bem-vindas para concluir nosso tema:
“A prudência é o olho de todas as virtudes.”
Pitágoras
“O prudente deve temer o julgamento de alguns sábios mais do que o de muitos ignorantes.”
Platão
“Prudência é saber distinguir as cosas que se podem desejar das que se devem evitar.”
Cicerón
“A prudência é, propriamente, virtude de príncipes.”
Aristóteles
“Tanta prudência é necessária para governar uma casa como um império.”
Emerson
BARBAM ET PALLIUM, PHILOSOPHUM NONDUM VIDEO.
─”Vejo uma barba e uma capa, mas não vejo um filósofo ainda”─
KWEN KHAN KHU