A imagem da diligência e da dedicação, Crispin van de Passe

“Diligentiae et sedvlitatis typus” (A imagem da diligência e da dedicação)

“Diligentiae et sedvlitatis typus” (A imagem da diligência e da dedicação) 850 480 V.M. Kwen Khan Khu

Mui queridos amigos/as leitores/as

Apresso-me a enviar-lhes a presente gravura que leva o título…

…DILIGENTIAE ET SEDVLITATIS TYPUS
─”A imagem da diligência e da dedicação”─

Este trabalho artístico foi elaborado por Crispin de Pases, o Velho, ou Crispin van de Passe ─1564-1637─, um ilustrador, editor e pintor flamengo.

A imagem da diligência e da dedicação, Crispin van de Passe

No mesmo aparece representado um personagem alado segurando em uma das mãos uma gadanha e na outra uma ampulheta. Igualmente, sobre sua cabeça, ele porta outra ampulheta. Esses atributos nos levam a identificá-lo com o sábio Saturno, conhecido pelos gregos como Cronos — o tempo —, uma divindade que passou a ser reconhecida como o Pai Tempo, tirano cruel que devora tudo, inclusive seus próprios filhos — as raças humanas. Ao seu lado vemos uma mulher que representa a virtude da laboriosidade — sedulitas — diante de um tear ou roca com o qual ela está trabalhando.

Da mesma forma, em primeiro plano observamos um pássaro alimentando suas crias, algumas formigas sempre trabalhando e uma galinha que cuida de seus pintinhos…

Descrição:

Paisagem com o Pai Tempo como um homem nu alado com gadanha e ampulheta, e a personificação feminina da diligência —diligentia— e da laboriosidade —sedulitas—, com tear ou roca. Em primeiro plano um pássaro. À esquerda, ao fundo, também podemos perceber um grupo de estudiosos aos quais alguns autores associam à prática da ciência da astronomia, e por outro lado, à direita, podem-se apreciar os produtores da . A dama do nosso tema tem sobre uma de suas pernas um livro aberto e uma lâmpada para assinalar a luz que nos proporciona nosso trabalho e nossa dedicação ao saber. Tal livro representa as leis da natureza. Tudo isso tem como base alguns comentários em língua latina.

Texto em latim:

«TEMPORIS exactam rationem semper habendam
Edoceo cunctos prouida SEDVLITAS,
Mente intenta libro, manibus contorqueo fusum
Omnibus admonitos viribus esse volens
Seu studijs nauent operam, aut campestribus armis,
Ingenuas artes, Mechanicasue colant
Formicas iubeo, volucresque imitentur, apesque
Elabi TEMPVS nec patiantur iners».

Tradução:

“Eu, a precavida DEDICAÇÃO, explico a todos que sempre há que ter um cálculo exato do TEMPO; com a mente ocupada em um livro, com as mãos no fuso. Com todas as forças querendo que sejam advertidos.

Ou se com esmero cumprem uma obra ou com armas campestres praticam artes liberais ou mecânicas.

Proclamo: que sejam imitadas as formigas, as aves e as abelhas, que não permitem que o tempo flua”.

Estimado(a) leitor(a), esta gravura vai dirigida a lutar contra a entropia em nossa vida horizontal para não nos tornarmos inertes e irresponsáveis em nossa existência. É por isso que Saturno ou Cronos está atento ao decorrer do tempo e, se não o aproveitarmos, chegará o instante no qual haveremos de partir deste mundo sem ter alcançado nenhuma meta. Isso dá origem ao axioma latino que reza: Tempus irreparabile fugit — “o tempo passa irremediavelmente” —.

A gadanha que Cronos ou Saturno ostenta, nos indica que tudo tem um princípio e um fim. Aqueles que acreditam que nossa vida é eterna ou infinita se equivocam, pois enquanto estivermos enredados na roda do tempo estaremos condenados à pena de existir, tendo que ajoelhar-nos diante das execráveis parcas ou anjos da morte em um momento determinado.

Em outra gravura que explico mais abaixo, desenvolveremos a temática da laboriosidade, mas já nos assuntos pertinentes à nossa vivência da vida vertical ou metafísica. Ninguém pode aventurar -se a querer experimentar os reinos do Espírito se antes não se fez um sujeito responsável. É aquilo que nosso Avatara nos explica quando nos diz: «Se não somos capazes de ser bons donos de casa, é impossível querer vivenciar o Caminho Secreto…».

No fundo da nossa ilustração, lá nas colinas do desenho, um camponês está trabalhando o campo auxiliando-se de um antigo arado que é arrastado por dois touros. Alquimicamente, arar a terra significa trabalhar nossa terra filosófica, ou seja, nosso corpo material.

Do outro lado, igualmente nas colinas, um homem se encontra inclinado como semeando algo, talvez sementes para fazê-las crescer. Em todo caso, esta é uma das múltiplas tarefas a que nós, os humanoides racionais, nos dedicamos. Devemos compreender muito bem que tudo nasce em seu tempo, vive em seu tempo e morre em seu tempo. Apenas o SER é eterno e imutável, por tal razão dizemos: ELE É ELE………

Sedvlitas, Laboriosidade

“Sedvlitas”, Laboriosidade

Nesta outra gravura ou ilustração, vemos agora a Divina Mãe mostrando-nos seu ventre ou claustro para dar-nos a entender que Ela é quem gesta nossa vida espiritual. Por isso leva o título de SEDULITAS ─”laboriosidade”─. Na imagem de nossa gravura vemos Stella Maris portando em sua destra uma lâmpada. Tal lâmpada nos indica a Luz ou sapiência infinita de Deus Mãe, e por isso também leva na mão esquerda um livro aberto. Esse é o livro que, no Arcano 2 do tarô, ISIS leva aberto em suas pernas. É Ela quem vai nos ensinando a Sabedoria Eterna à medida que vamos nos aproximando de seu santuário.

Perto da Divina Senhora vemos novamente uma galinha protegendo seus pintinhos. É isso o que Devi-Kundalini faz conosco, constantemente Ela está velando pelo nosso bem-estar espiritual e o faz com muita dedicação permanente.

Ao fundo desta outra gravura vemos um pequeno estábulo e na parte externa do mesmo vemos um SER iluminado que está folheando as Sagradas Escrituras enquanto duas pessoas espiam por algumas portas e observam o sábio. Isso é para nos indicar que devemos imitar os profetas ou iluminados e estudar os mistérios da vida e da morte ao longo de nossa existência.

Tanto perto da cabana que vemos ao fundo quanto perto da Divina Mãe apreciamos a imagem de uma roca. A roca simboliza a própria roda do destino, onde se tecem ou se destecem as circunstâncias de nossa existência. Perto da cabana uma moça tem uma roca e perto da sagrada Ram-IO observamos o mesmo instrumento, pois um é o nosso destino material e outro é o destino espiritual que merecemos segundo os atos de nossa vida.

O ventre da Virgem é mostrado nesta ilustração para recordar-nos que é Ela quem vai nos gestando como «Filhos da Luz» ou Adeptos da Fraternidade Branca. Ela tem todo o mérito, nós somos somente germens sobre os quais Ela realiza seu trabalho de gestação a fim de nos converter em uma criação solar digna de ser levada em conta pelos olhos do Pai Eterno.

No telhado de uma casa próxima a Deus-Mãe, vemos uma cegonha alimentando seus filhotes, como nos dizendo que a maternidade é um trabalho incessante que Ela, a bendita Mãe Natura, está sempre realizando constantemente, seja em seu papel de Mãe Natura ou como Mãe Cósmica ou talvez como nossa bendita Ram-IO.

Ao pé desta segunda gravura encontramos novamente algumas inscrições latinas, vejamo-las:

«Sedulo opus facias; qua te statione locauit cunque Deus, vitae seu te fomenta fugacis scabroso impellat manuum conquirere callo; siue exercitijs animi, linguaque magistra».

Tradução: “Que cumpras a obra laboriosamente na posição na qual de alguma forma Deus te colocou. Que te empurre a buscar o sustento da vida fugaz ou na íngreme ladeira dos trabalhos manuais, ou nos exercícios da mente, com a eloquência como mestra”.

A mensagem que nos é transmitida nessas linhas é, justamente, um convite a abandonar a desídia e a obedecer a vontade do Pai estejamos onde estivermos ou no ofício que desempenharmos. Inclusive, fala-nos de laborar de maneira magistral nos ofícios espirituais para complacência do nosso Real SER. Todas essas frases latinas vão dirigidas à nossa Consciência para que sejamos cada vez mais fiéis aos nossos ensinamentos.

Compartilho, para finalizar, algumas frases propícias para serem refletidas:

«O talento é como a saúde, que quando se disfruta é quando menos se conhece».
Helvecio

«Talento básico é aquele que guia aos demais».
Pascal

«Recebe-se os homens de acordo com a roupa que vestem, mas despede-se deles de acordo com o talento que demonstrara».
Saadi

«O talento é um dom que Deus nos dá em segredo e que nós revelamos sem saber».
Montesquieu

«O talento se forma na quietude, o caráter no turbilhão do mundo».
Goethe

IUS EST ARS BONI ET AEQUI.
─”O direito é a arte do bem e do justo”─.

KWEN KHAN KHU