Amadíssimos amigos e amigas:
Faço-lhes chegar com imenso prazer um poema gnóstico intitulado…
…A MENTE PERFEITA
Foi achado entre os manuscritos de Nag Hamadi. Remonta mais ou menos dois mil anos no tempo.
Quem fala neste poema é a divina SOPHIA, a alma que foi enviada desde o AIN e que, havendo caído, busca regressar as suas origens. Daí que ela própria se questione seu destino.
Eu fui enviada desde o poder e vim àqueles que refletem sobre mim, e fui achada entre aqueles que me procuram. Considerem-me aqueles que refletem sobre mim, e vocês que escutam, me escutem. Aqueles que me aguardam, me levem com vocês. E não me percam de vista. E não façam que sua voz me odeie, nem seu ouvido. Não me ignorem em nenhum lugar nem em nenhum momento. Estejam em guarda! Não me ignorem.
Porque eu sou a primeira e a última. Eu sou a honrada e a desprezada. Eu sou a prostituta e a santa. Eu sou a esposa e a virgem. Eu sou a mãe a filha. Eu sou os membros de minha mãe. Eu sou a estéril e muitos são meus filhos. Eu sou aquela cujo casamento é grande, e não tomei esposo. Eu sou a parteira e aquela que não deu à luz. Eu sou o consolo das dores de parto.
Eu sou a noiva e o noivo, e foi meu esposo quem me concebeu. Eu sou a mãe de meu pai e a irmã de meu esposo e ele é minha criatura. Eu sou a escrava do que me preparou. Eu sou a que governa minha criatura, mas ele é quem me concebeu antes do tempo do nascimento.
E ele é minha criatura a seu devido tempo, e dele vem meu poder. Eu sou o braço de seu poder em sua juventude, e ele é o báculo de minha velhice. E me ocorre aquilo que ele deseja. Eu sou o silêncio incompreensível e a ideia recorrente. Eu sou a voz de múltiplos sons e a palavra de aparência múltiplo.
Eu sou a pronunciação de meu nome. Por que me amam quem me odeiam, e me odeiam quem me amam? Aqueles que renegam de mim, confessam-me, e aqueles que me confessam renegam de mim.
Aqueles que dizem verdade de mim, sobre mim mentem, e aqueles que mentiram sobre mim, disseram verdade de mim.
Aqueles que me conhecem, ignoram-me, e aqueles que não me conheceram, conhecem-me. Porque eu sou o conhecimento e a ignorância.
Eu sou vergonha e bravura. Eu sou desvergonhada, eu estou envergonhada. Eu sou força e eu sou medo. Eu sou guerra e paz. Prestem-me atenção. Eu sou a desonrada e a grande. Prestem atenção à minha pobreza e à minha riqueza. Não sejam arrogantes comigo quando seja expulsa da terra, e me acharão naqueles que estão por vir.
E não me considerem no monte de esterco nem se marchem abandonando-me, e me acharão nos reinos. E não me considerem quando esteja exilada entre aqueles que caíram em desgraça e no mais remoto lugar, e não me abandonem entre aqueles que hão de ser assassinados.
Mas eu, eu sou compassiva e eu sou cruel. Estejam em guarda! Não odeiem minha obediência, não amem meu autocontrole. Em minha debilidade não me abandonem, e não temam meu poder.
Por que menosprezam meu temor e maldizem meu orgulho? Eu sou o que existe em todos os medos e fortalece no temor.
Eu sou aquela que é fraca, e estou bem em lugar agradável. Eu sou inconsciente e eu sou sábia.
Por que me odeiam em seus concílios? Porque eu calarei entre aqueles que calam, e eu aparecerei e falarei. Por que me odiaram, gregos? Por que eu sou bárbara entre os bárbaros? Pois eu sou a sabedoria dos gregos e o conhecimento dos bárbaros. Eu sou o juízo dos gregos e dos bárbaros. Eu sou aquela cuja imagem é grande em Egito e aquela que não tem imagem entre os bárbaros. Eu sou aquela que foi odiada por toda parte e quem foi amada por toda parte.
sou aquela à que chamam de Vida, e vocês me chamaram de Morte. Eu sou aquela à que chamam de Lei, e vocês me chamaram de Caos. Eu sou aquela à que perseguiram, e eu sou aquela à que apressaram. Eu sou aquela à que temiam, e a mim se uniram.
Eu sou aquela ante a que se envergonharam, e vocês foram desvergonhados comigo. Eu sou aquela que não guarda as festas, e eu sou aquela cujas festas são muitas. Eu, eu não tenho deus, e eu sou aquela cujo Deus é grande. Eu sou aquela sobre a que refletiram, e me menosprezaram. Eu sou incompreensível, e aprenderam de mim. Eu sou aquela à que desprezaram, e refletem sobre mim…
Eu sou aquela da que se esconderam, e aparecem ante mim. Mas quando se esconderem, eu aparecerei. Pois quando apareçam, esconder-me-ei de vocês.
[…]
Eu sou o conhecimento de minha pergunta, e o achado daqueles que me procuram, e a resposta a quem perguntam por mim, e o poder dos poderes em meu conhecimento dos anjos, que foram enviados a minha palavra, e dos deuses em sua idade por meu conselho, e dos espíritos de cada homem que existe comigo, e de cada mulher que habita em mim.
Eu sou aquela que é honrada e louvada, e quem é menosprezada com desprezo. Eu sou paz, e guerra que vieram por minha causa. Eu sou estrangeira e cidadã. Eu sou a substância e aquela sem substância.
Aqueles que não estão comigo, ignoram-me, e aqueles que estão em minha substância são aqueles que me conhecem. Aqueles que estão perto de mim, ignoraram-me, e aqueles que estão longe de mim são aqueles que me conheceram. No dia em que me aproximo a vocês, estão longe de mim, e no dia em que me afasto de vocês, estou a seu lado.
[…]
Eu sou o controle e a incontrolável. Eu sou a união e a dissolução. Eu sou a permanência e sou a impermanência. Eu sou a que está abaixo, e eles vêm sobre mim.
Eu sou o juízo e a absolução. Eu, eu sou a sem pecado, e a raiz do pecado deriva de mim. Eu sou luxúria aparente, e em mim habita a castidade.
Eu sou a voz ao alcance de todos e o discurso incompreensível. Eu sou uma muda que não fala, e grande é a multidão de minhas palavras. Ousam-me na doçura, e aprendam de minha aspereza. Eu sou a que grita, e eu sou expulsa da face da terra. Eu preparo o pão e nele fecho minha alma. Eu sou o conhecimento de meu nome. Eu sou aquela que grita, e eu escuto.
[…]
Vocês, os derrotados, julguem a quem os derrotam antes que julguem vocês, porque o juiz e a parcialidade existem em vocês. Se são condenados por este, quem os absolverá? Ou, se são absolvidos por ele, quem os prenderá? Pois o que habita em seu interior é o que habita fora de vocês,
e aquele que os cria no exterior é quem modela seu interior. E o que veem em seu exterior, veem-no em seu interior; é invisível e é seu vestido. Escutem-me os que escutam, e aprendam de minhas palavras aqueles que me conhecem. Eu sou a voz ao alcance de todos. Eu sou o discurso incompreensível. Eu sou o nome do som e o som do nome. Eu sou o signo da letra.
[…]
E eu pronunciarei seu nome. Olhem então suas palavras e todas as escrituras que foram completadas. Prestem atenção aqueles que escutam, e também vocês, anjos e aqueles que foram enviados, y vocês, espíritos que foram despertados da morte. Pois eu sou aquela que existe em solidão, e não tenho nimguém que me julgue. Pois muitas são as formas prazerosas do pecado, e a incontinência, e as paixões desonrosas, e os prazeres fugazes, que os homens abraçam antes da sobriedade e do regresso a seu lugar de repouso. E lá me acharão, e lá viverão, e não morrerão de novo.
Acrescento ahora estas frases para reflexão:
«Deus é a verdade e a nós corresponde descobri-la».
João de Muller
«Deus é o Mestre e emendador de todos».
Frei Luis de Granada
«Quem não se humilha e engrandece a um tempo ante a ideia de Deus, não é bom».
Isabel a Católica
«Tudo quanto me mostra a Deus em meu interior, fortalece-me. Tudo quanto me mostra fora de mim, enfraquece-me».
Emerson
«Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo».
Voltaire
GLADIUS DEI.
─‘A espada de Deus’─.
Kwen Khan Khu